domingo, 13 de março de 2011

René Guénon e o Simbolismo da Cruz


René Guénon

Guénon foi um dos maiores expoentes da escola perenialista, e influencia imensamente nossa cultura ate os dias atuais. Infelizmente, seu nome foi ofuscado por tantos outros pensadores, que foram de grande valia para tantas outras correntes de pensamento e vida. Mas Guénon não pode ser simplesmente comparado a outros nomes da filosofia ou da ciência. Como ele mesmo opõe em suas obras, não há em nossa sociedade, a preocupação em aprofundar-se no estudo da realidade puramente espiritual, ao contrario o que se faz hoje é aplicar a lógica do cientificismo a Deus e querer compreender e explicar toda uma realidade, deveras imensa, com a pequena compreensão da ciência. René Guénon foi para o mundo, exemplo não só da importância dos estudos metafísicos, como também prova da convivência pacifica entre diferentes crenças e opiniões.

Biografia

Nascido em 15 de novembro de 1886 na comuna de Blois, no centro da França. Filho de família católica, Guénon foi batizado ainda bebê como manda a tradição. Em 1897, aos 10 anos, recebeu a primeira eucaristia. Desde cedo possuiu saúde frágil, e devido a isso recebeu a educação básica de sua tia, professora de uma escola em Blois. Com doze anos ingressou em uma escola secundária, dirigida por sacerdotes católicos, e lá se manteve por três anos. Em 1902 entra para o curso de retórica do colégio Augustín-Thiéry. Como estudante de filosofia, recebe vários prêmios. Após sua graduação, ingressa no curso de Matemáticas Especiais, que conclui merecendo uma das mais altas homenagens dos ex-alunos da instituição. Seguindo o conselho de alguns professores, viaja para Paris em busca da licenciatura em matemática. Mas a sua fraca saúde o impede de concluir o curso e abandona definitivamente em 1906. Mesmo fora da vida universitária, Guénon permanece em Paris por cerca de vinte e cinco anos, entre os anos de 1906 e 1909, freqüenta a escola hermética, estudando as diversas vias do neo-espiritualismo e ao fim de suas pesquisas publica na revista Gnose, um artigo intitulado A gnose e as escolas neoespiritualistas. Em 1909, ingressa na Igreja Gnóstica, recebendo o titulo de bispo. Nessa época conhece duas pessoas que viriam a ser de grande importância em seus estudos: Léon Champrenaud e Albert de Pourvourville. Em 1912 contrai matrimonio e recebe a iniciação islâmica.
Como toda a sua vida, a morte de Guénon também é envolta em lendas. Faleceu no dia 7 de janeiro de 1951, depois de ter dito várias vezes “A alma se vai!”. Suas últimas palavras foram: Alláh, Alláh! O médico que o acompanhava, não soube explicar do que ele teria morrido, já que nenhum de seus órgãos estava especialmente avariado. Segundo ele: “A alma partiu misteriosamente”.



A reforma da mentalidade moderna

“La civilización moderna aparece en la historia como una verdadera anomalía: de todas las que conocemos, es la única que se haya desarrollado en un sentido puramente material, la única también que no se apoye en ningún principio de orden superior.”[1]
Uma sociedade que se funda unicamente na ciência e rejeita toda e qualquer forma de religião, de realidade transcendente. Para Guénon essa é a formula que seguimos contemporaneamente, e também o maior erro dos intelectuais contemporâneos. Mas essa nova sociedade não nasce repentinamente, é resultado de todo um processo filosófico, mais exatamente, das novas escolas filosóficas nascidas com a filosofia moderna, que ignora toda a forma de religião, criando uma filosofia materialista, e decretando o fim da metafísica.
Guénon cita William James como um exemplo das aberrações surgidas desse novo modo de filosofar. Escreve: “Con William James por ejemplo, a ver en la subconsciencia el medio por el cual el hombre puede entrar en comunicación con lo Divino.”[2]. Para ele um ótimo exemplo de pensamento intelectualista que se contenta apenas com as respostas que o intelecto pode sugerir. Esse desprezo é tema de uma das obras mais famosas de Guénon. E também capitulo inicial de Símbolos Fundamentales de la Ciencia Sagrada.

Símbolos tradicionais

O perenialismo de Guénon defende a existência de um fundo metafísico comum a todas as religiões, sendo as diferenças entre elas, meras variações culturais e de interpretação. O simbolismo presente nas religiões são, em conseqüência, comuns a todas elas. Esses símbolos servem como uma espécie de indicador, que não tem em si um significado próprio, mas levam o homem a encontrar o significado oculto. Esse simbolismo não é gerado pelo intelecto humano, surge do fundo metafísico que permeia as religiões. É, portanto o simbolismo religioso, um simbolismo natural e de fácil compreensão.



O simbolismo da cruz


A cruz é encontrada nas mais diversas culturas ao redor do mundo, e seu significado é coincidente em todas essas culturas. Esse é um aspecto de grande importância, pois é um dos símbolos universais humanos, já que sua presença em povos que nunca tiveram mínimo contato com outras civilizações é forte assim como também é em povos conhecidamente influenciados por outras culturas. Esse aspecto universal do símbolo também pode ser atribuído à sua interpretação pré-cristã. É esse modelo primordial que chamaremos de cruz, sendo todas as suas variações nomeadas distintamente para evitar a confusão das interpretações e símbolos.

A cruz grega

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O perfeito exemplar de cruz primordial é a Cruz Grega, que possui os quatro braços de mesmo tamanho e nenhum outro detalhe quer seja no seu traço ou nas extremidades. Duas interpretações são atribuídas a esse símbolo. A primeira é a divisão do plano em quatro quadrantes, que são freqüentemente relacionados aos quatro elementos, ou aos quatro pontos cardeais. Essa é uma interpretação ‘pagã’ que foi sendo deixada de lado com o advento do cristianismo, mesmo que ainda seja base para uma grande variedade de símbolos. Há também a posterior atribuição de significados bíblicos a esses quatro quadrantes, como por exemplo, os quatro animais que representam os evangelistas, ou ainda a Jerusalém Celeste, cidade com portas para os quatro cantos do mundo. Uma segunda interpretação defende que união de duas realidades opostas é o significado fundamental da cruz. O traço vertical representa então, uma realidade metafísica e o traço horizontal representa uma realidade física. Vale lembrar que a cruz primordial não possui a conotação de sofrimento, como hoje o simples fato de ouvir a palavra cruz nos lembra. Ela é antes um símbolo da busca do humano por complementação em uma realidade que o transcende. Um símbolo perfeito para representar a religação entre o homem e Deus.

A cruz ansata

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O Ankh, também conhecido como Cruz Ansata, ou Cruz Egípcia é hieróglifo que representa a vida após a morte. É tida como uma cruz apesar de possuir um arco no lugar de um dos braços retos. O ankh é visto como a chave do Nilo, que abre as portas do rio para que a cheia aconteça todos os anos e permita assim que as águas tragam nova vida para as margens do Nilo, fazendo a vida ressurgir da morte.


O Tau

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Recebe esse nome devido à letra grega que possui uma forma semelhante. Apesar de ter origem na ultima letra do alfabeto hebraico. É tida como a cruz do antigo testamento, da promessa feita ao povo hebreu. Dentre as muitas interpretações, está a do martelo de duas pontas, que representa aquele que aplica lei divina. É relacionada também com a haste usada por Moises para erguer a imagem da serpente no deserto. Essa cruz foi usada pelas primeiras comunidades cristãs como insígnia de Cristo. Francisco de Assis adotou o tau como símbolo de sua ordem religiosa.

A cruz cristã

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Herda grande parte dos significados de todas as cruzes anteriores, unindo essas imagens em uma nova perspectiva. Em principio possui apenas o significado negativo da condenação à morte, é a morte de Cristo na cruz que transforma essa conotação negativa. A significação principal após Cristo é a nova vida que surge de sua morte. Cristo também é aquele que faz cumprir a lei divina e é ele próprio o ponto de união das realidades divina e humana.


A cruz invertida

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Segundo a tradição católica, o apostolo Pedro, o primeiro papa, ao sofrer o martírio pela crucificação, pediu que o crucificassem de cabeça para baixo por não se julgar digno de morrer do mesmo modo que Jesus. Os papas utilizavam esta cruz para lembrar que são sucessores de Pedro. Adquiriu um significado negativo, que a posiciona como o símbolo oposto ao cristianismo, sendo adotado por seitas satânicas.


A suástica

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Outro exemplo de cruz que adquiriu um significado negativo. Presente em muitas civilizações antigas representa o movimento do mundo. Possivelmente seja uma representação da roda das existências (samsara), no budismo e hinduísmo. É vista ornando muitos templos orientais e na China é comum ser usada para representar templos não cristãos em mapas de cidades. Adquiriu má reputação por conta do uso pelo Nazismo

Cruz patriarcal

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Conhecida como Cruz de Lorena ou Cruz de Caravaca. O ‘braço’ menor representa a inscrição colocada na cruz de Cristo pelos romanos. Foi utilizada na antiguidade por bispos e príncipes cristãos. Algumas igrejas brasileiras que se intitulam ortodoxas utilizam essa cruz como símbolo.

Cruz Ortodoxa

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Utilizada como símbolo pela Igreja Católica Ortodoxa. Possui, do mesmo modo que a anterior, um braço menor representando a inscrição sob a cruz. A tradição ortodoxa acredita que os pés de Cristo não foram pregados à cruz, mas sim algemados a uma barra de madeira, o braço inferior representa essa barra, que segundo a crença ficou torta após um terremoto.





Bibliografia

GUÉNON, René; Símbolos Fundamentales de la Ciencia Sagrada, Tradução por Juan Valmard. Buenos Aires, Eudeba, 1969.
GUÉNON, René; Le Symbolisme de la Croix, Véga, París, 1931.
FRUTIGIER, Adrian; Sinais e símbolos: desenho, projeto e significado, Tradução por Karina Jannini. – 2ª Ed. – São Paulo, Martins Fontes, 2007


[1] GUÉNON, René. Símbolos Fundamentales De La Ciencia Sagrada p. 50
[2] Ibidem.

1 comentários:

  1. Vale lembrar um aspecto interessante da cruz cristã: o traço vertical é maior que o horizontal porque a relação do homem com Deus deve superar a relação com seus semelhantes, isto é, amar Deus sobre todas as coisas e, depois, o próximo.

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