quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Jesus também sorria!


     [Do livro "Mestre de bom humor" de José Luis Soria (em homenagem à recente canonização de São Josémaria Escrivá, fundador da Opus Dei), pág. 15-22, ed. Quadrante].


     Tudo o que "toca" o Senhor ressuma alegria; mais ainda, onde quer que chegue a mensagem evangélica, imediatamente irrompe a alegria; o etíope batizado por Felipe já não pode conter a sua alegria e continuou gozoso o seu caminho (At 8,39); Paulo anuncia o Evangelho ao carcereiro e à sua família, e já os temos cheios de alegria (At 16,34); Felipe prega Jesus Cristo na Samaria e... houve uma grande alegria naquela cidade (At 8,8). [1]
     (...) Se teve horas de profunda tristeza, à vista de tanto pecado, de tanta dureza de coração e tanta ingratidão, a sua alma possuía habitualmente a plenitude da felicidade. E isso é incompatível com a melancolia. Acaso podia estar permanentemente taciturno quem disse: Quando jejuardes, não vos finjais de tristes como hipócritas?(Mt 6,16) ou não vos alegreis de que os escribas se vos submetam; alegrai-vos antes de que vossos nomes já estão escritos no céu? (Lc 10,20). É maravilhosamente consolador ver que, mesmo nos momentos em que a debilidade da natureza humana aparece de um modo patente em Jesus - como no Horto das Oliveiras -, nunca essa tristeza afeta a sua retidão espiritual e o rumo das suas decisões.

     (...) Certamente, Jesus não podia rir-se dos seus defeitos, pela soberana razão de que não os tinha; como também não podia troçar dos defeitos alheios, porque é a Misericórdia infinita; ou soltar uma gargalhada destemperada e inoportuna, que é privilégio do néscio. Mas a alegria e o humorismo não se esgotam nessas três possibilidades.
 
     Eu imagino Jesus sorrindo por dentro, na noite daquela furiosa tempestade no lago de Genesaré, quando se aproximou da barca dos Apóstolos, andando sobre o mar, e fez menção de passar ao largo. Eles, quando o viram caminhando sobre o mar, pensaram que era um fantasma e gritaram. Todos, com efeito, o viram e se assustaram. Ele falou imediatamente com eles - e agora imagino-o sorrindo também por fora - e disse-lhes: "Tende confiança, sou eu, não temais". E subiu com eles à barca e o vento cessou. (Mc 6,48-51). Como é possível entender em profundidade a vida de Cristo, se a imaginamos sempre soleníssima e severa, ou se privamos o Senhor do sentido do humorismo que - nas suas melhores manifestações - é tão bom fruto da maturidade humana?
 
     Jesus não era um pregador ancião, distante e rabugento. A forte personalidade do Deus-Homem arrastava as multidões; não podemos deixar de contemplar nesse Profeta jovem um exterior atrativo e sorridente; doutro modo, mães receosas não teriam deixado os seus meninos aproximarem-se dEle, e estes não se teriam atrevido sequer a deixar que as mãos de Cristo acariciassem os seus cabelos. [2]
 
     (...) À solução que Jesus deu a Pedro, intimidado com a pergunta dos cobradores de impostos que queriam saber se o Mestre pagava o tributo da didracma: Vai ao mar, lança o anzol e o primeiro peixe que apanhares, abre-lhe a boca e acharás dentro um estáter. Toma-o, e dá por mim e por ti (Mt 17,27); seria bonito ver a cara de surpresa com que maravilhado o pescador tiraria a moeda da boca daquele Hemichromis sacra, que esse parece ser o solene nome científico do peixe da brincadeira divina.
 
     (...) Por isso, a alegria é um bem cristão, como também o são todas as suas manifestações - e o senso de humor é uma delas. Lembremo-nos sempre desta substanciosa e concisa advertência de São Josemaría Escrivá: Não conseguiremos jamais o verdadeiro e bom humor, se não imitarmos deveras Jesus, se não formos humildes como Ele. A alegria cristã é um tesouro que ninguém nos deve arrebatar. Não é simplesmente uma alegria fisiológica. É muito mais. É alegria dos filhos de Deus: dom sobrenatural que procede da graça. Por isso, a nossa alegria tem conteúdo, não é vã. Assume todas as manifestações das alegrias humanas nobres e as multiplica, dando-lhes o sólido fundamento da filiação divina. [3]

[1] S. Martinho Sáez, Tristeza humana y alegría cristiana
[2] Jesús Urteaga, O valor divino do humano
[3] Álvaro del Portillo, Homilia na Basílica de São Paulo Extramuros de Roma

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