quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Anjo da Guarda - Cecy Cony

      Relato de uma das experiências de Cecy Cony (1915) com seu Anjo da Guarda, da sua autobiografia "Devo Narrar Minha Vida".



     Rezar de joelhos
     Papai estava ainda na colônia Militar do Alto Uruguai. Ele morava só com uma cozinheira e outra criada para tratar da casa, e mais o bagageiro. Dissera em outra ocasião, que estranhava imensamente a ausência de papai, cuja lembrança nunca me deixara. Pensava muitas vezes, mas minha saudade por papai, que lá não tinha quem cuidasse bem dele, quando estivesse doente, e tantas outras apreensões senti.

     Era eu incapaz de adormecer, à noite, se não tivesse rezado o terço inteirinho, por papai, quanto tivesse feito algum sacrifício “grande”. E o meu último pedido ao meu Novo Amigo, antes de adormecer, era: Ide com papai e ficai vigiando por ele, juntamente com o seu Novo Amigo. Só então adormecia em paz.

     Certo dia, mais do que nos outros, tive saudades de papai. Os sacrificiozinhos se sucediam e mais de um terço foi rezado a Nossa Senhora. Tinha mais saudades de papai, era só o que sabia. À noite, pedi a meu Novo Amigo fosse ter com papai antes mesmo de eu adormecer. E depois que todos dormiam, já tarde, despertei com pensamento em papai. Estávamos no rigor do inverno. Pensei, já que não tinha sono, em rezar o terço por papai, porém, mesmo deitada; com o frio não me dispunha a levantar-me e ajoelhar. Comecei a 1ª dezena do santo terço, mas não cheguei a rezar 3 Ave-Marias. Como que um forte impulso obrigou a me levantar; devia rezar de joelhos. Fi-lo. De joelhos, ao pé da cama, rezei com a maior devoção que era capaz minha alma, numa firmíssima convicção de que papai necessitava de oração. Rezei, não só um terço do santo Rosário, mas ainda um “terço” de “Lembrai-vos que vos pertenço”, e um “terço” de “Santo Anjo”.

     Meu Novo Amigo até então não se manifestara. Não estranhei, todavia, pois o mandara ir ter com papai. Ao terminar o “terço” do “Santo Anjo”, recomecei um “terço” de “Glória ao Pai”, tão forte era a disposição que tinha de orar, apesar do frio intenso que sentia, da escuridão e do silêncio reinantes. No fim da dezena do “Glória ao Pai”, eis que sobre minha cabeça a santa mão, como a me acariciar, como a dizer: “Basta, papai está salvo” (isso sentia convictamente). Retornei à cama, e pouco depois, tornava a adormecer numa paz santa, bem santa.

     Passados vários dias, mamãe recebe uma grande carta de papai, e tiras do jornal onde relatava o caso. Por uma falta cometida contra a disciplina, papai prendera um soldado. Este, após ter terminado o tempo correcional, foi posto em liberdade.

     Duas ou três noites depois (justamente aquela noite em que eu despertara para rezar) papai desperta com o ruído de fortes estalidos na casa, e vê-se rodeado de enorme clarão. Percebendo que a casa estava em chamas, salta da cama e quis passar à peça contígua para salvar papeis de importância. Impossível! As chamas devoraram tudo assustadoramente. Tenta passar pela outra porta, o mesmo. Tudo rodeado pelas chamas. Papai foi ainda quem deu o sinal de alarme, e veio enfim o socorro. Feitas depois as investigações, foi desvendado o caso. O pobre soldado, num sentimento de vingança, ateara fogo à casa; confessara-o depois. 

     Narrei esse fato, porque tenho a firme convicção de que fora meu Novo Amigo quem salvara papai. Creio até que foi ele quem abrira a janela para papai salvar-se. Como era meu costume, sem mesmo sabe-lo explicar, não contei a ninguém o caso daquela noite dos santos terços. Sei apenas que meu Novo Amigo me deixara rezando, enquanto papai fora salvo.

     Meu Novo Amigo, seja o bom Deus glorificado na vossa santa fidelidade. Amém.

***

Santos Anjos da Guarda, iluminai-nos!

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